A Eleição não Desanima as Almas Buscadoras (sermão inédito de C.H.Spurgeon)
Nº 553
Um sermão pregado na manhã do Domingo, em 7 de Fevereiro, 1864
Por Charles Haddon Spurgeon / No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres.
“E terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” Êxodo 33:19.
Posto que Deus é o fabricante, e o
criador, e o sustentador de todas as coisas, Ele tem o direito de fazer
com todas as Suas obra o que lhe agrade. “Dirá o vaso de barro ao
que o formou: Por que me fizeste assim? Ou o oleiro não tem poder sobre o
barro, para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para
desonra?” A supremacia absoluta de Deus e Sua soberania sem limites
fluem naturalmente de Sua onipotência, e do fato que Ele é a fonte e
Ele sustenta todas as coisas. Mais ainda, se não fosse assim, a
excelência superlativa do carácter divino lhe daria o direito de um
domínio absoluto. O chefe deve ser o melhor. O que não pode errar, sendo
perfeito em sabedoria; o que não vai falhar, sendo perfeito em
santidade: o que não pode fazer o mal, sendo supremamente justo: o que
deve atuar de acordo com os princípios da bondade, porque Ele é em
essência amor, é a pessoa mais adequada para governar.
Não me falem de criaturas que se
governem sozinhas: que caos seria! Não me digam de uma suposta república
de todas as existências criadas, que se controlam e se guiam a si
mesmas. Todas as criaturas consideradas em seu conjunto, com sua bondade
e sabedoria combinadas, se em verdade não fosse mais bem insensatez e
perversidade combinadas, todas estas, digo, com todas as excelências do
conhecimento, juízo e amor que a imaginação mais fervente possa supor
que possuem, não poderiam igualar a esse grandioso Deus cujo nome é
santidade, cuja essência é amor, a quem pertence todo o poder, e ao
único a quem se deve reconhecer a sabedoria. Ele deve reinar supremo,
pois é infinitamente superior a todas as outras existências. No caso de
que Ele não reinasse realmente, os votos de todos os homens sábios
elegeriam ao Senhor Jeová como o monarca absoluto do universo; e se já
não fosse Rei de reis e Senhor de senhores, fazendo o que lhe agrada em
meio dos exércitos do céu e dos habitantes deste mundo mais baixo, o
caminho da sabedoria consistiria em elevá-lo a esse trono.
Como os homens pecaram, isso se converte
todavia em uma razão adicional, ou melhor, em um espaço mais amplo para
o desenvolvimento da soberania. Poderia supor-se que a criatura, como
criatura, tem algum direito sobre o Criador; ao menos, pode esperar que
não será exposta por Ele à dor de maneira intencional e despótica; que
não fará sua existência miserável de maneira arbitrária, sem causa nem
necessidade. Eu não me atreverei a julgar ao Senhor, mas verdadeiramente
penso que é completamente incompatível com Sua bondade que houvesse
feito uma criatura, e como criatura, a houvesse condenado à miséria. A
justiça parece demandar que não haja castigo onde não haja pecado. Mas o
homem perdeu todos os seus direitos como criatura. Se alguma vez teve
algum direito, com o pecado, o perdeu.
Nossos primeiros pais pecaram, e nós,
seus filhos, nos corrompemos cometendo alta traição contra nosso Senhor e
soberano. Tudo o que o Deus justo nos deve, a qualquer um de nós, sobre
a base do nosso próprio direito, é ira e desgosto. Se nos desse o que
nos corresponde, não poderíamos permanecer mais dentro do terreno da
oração, nem respirar o ar da misericórdia. A criatura, diante de seu
Criador, deve agora calar em relação a qualquer demanda sobre Ele; não
pode exigir nada dele como um direito. Se o Senhor quer mostrar
misericórdia, assim será; mas se a retêm, quem lhe poderia pedir contas?
“Não me é lícito fazer o que quero com o meu?” É uma resposta
adequada a todas perguntas arrogantes; pois, por seus pecados, o homem
não tem o direito de ir à uma corte, nem nenhum direito de apelar à
sentencia do Altíssimo.
O homem está agora na posição de um
criminoso condenado, cujo único direito é ser levado ao lugar de sua
execução, para sofrer com justiça a devida recompensa por seus pecados.
Independentemente das diferentes opiniões que possam ter existido acerca
da soberania de Deus exercida sobre as criaturas em geral, não deveria
haver desacordos, e não haverá nenhum, exceto nos espíritos rebeldes, no
relativo à soberania de Deus sobre os rebeldes que pecaram para merecer
a ruína eterna, e que perderam todo direito à misericórdia e ao amor de
seu ofendido Criador.
Contudo, que todos nós estejamos de
acordo com a doutrina de que Deus é soberano ou que não estejamos de
acordo, é algo sem importância para Ele, pois Ele é soberano. De lei,
por direito, Ele deve ser soberano; de fato efetivamente é. Isso é um
fato, e somente têm que abrir seus olhos para ver que Deus atua como
soberano na dispensação de Sua graça. Nosso Salvador, quando quis citar
exemplos disto, disse assim: “havia muitas viúvas em Israel no tempo
de Elias, o profeta, mas a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a
Sarepta, uma cidade de Sidom, a uma mulher que era viúva.” Aqui
encontramos eleição! Elias não foi enviado para que alimentasse nem para
que fosse alimentado por uma viúva israelita, senão que foi a uma pobre
mulher idólatra mais além da fronteira, e a bênção da companhia do
profeta foi outorgada gratuitamente. Ademais, nosso Salvador disse: “E muitos leprosos havia em Israel nos tempos do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo, senão Naamã, o sírio”; não um israelita, senão um que se prostrava na casa de Rimóm.
Olhem como a graça que distingue
encontra objetos estranhos! Ainda que nosso Salvador deu unicamente
estes dois exemplo, e nem um mais, já que eram suficientes para Seu
propósito, há milhares de casos parecidos que estão registrados. Olhem
ao homem e aos anjos caídos. Como é que os anjos caídos são condenados
ao fogo que não tem fim, e reservados em cadeias de escuridão para o
grande dia? Não houve um Salvador para os anjos; nenhum sangue precioso
jamais se derramou por Satanás. Lucifer cai, e cai para sempre, sem
nenhuma esperança. Não há nenhuma dispensação de misericórdia para esses
espíritos mais nobres; mas o homem, que foi feito menos que os anjos,
foi seleccionado para ser objeto da redenção divina. Quão grande
profundidade há nisto! Este é um exemplo muito ilustre e indisputável do
exercício das prerrogativas da soberania divina.
Olhem outra vez para as nações da terra.
Por que o Evangelho é pregado hoje a nós ingleses? Temos cometido
tantas ofensas e eu me atreveria a dizer que temos perpetrado tantos
crimes políticos como outras nações. Nosso olho sempre está tendencioso a
tudo o que é inglês; mas se lemos nossa história com objetividade,
podemos descobrir no passado e detectar no presente, graves e sérios
erros que desonram a nossa bandeira nacional. Não minimizemos como
ofensas menores as últimas barbaridades perpetradas no Japão e nossas
frequentes guerras de extermínio em Nova Zelândia e no Cabo, e deveriam
envermelhar as bochechas de cada um dos habitantes das Ilhas Britânicas
simplesmente ao recordar o tráfico de ópio com a China.
Contudo, a nós nos é enviado o Evangelho
por pura graça, de tal forma que poucas nações o gozam tão plenamente
como nós. É certo que Prússia e Holanda ouvem a Palavra, e que Suécia e
Dinamarca são consoladas pela verdade, mas sua vela arde tenuemente; é
uma pobre lâmpada vacilante que apenas ilumina a escuridão deles,
enquanto em nossa própria terra amada, em parte devido a nossa liberdade
religiosa, mas todavia mais imerecidamente por meio do último
avivamento[1], o sol do Evangelho brilha intensamente, e os homens se regozijam a plena luz do dia.
Por que isto ocorre? Por que não há
graça para os japoneses? Por que o Evangelho não é pregado aos
habitantes da África Central? Por que não foi proclamada a verdade de
Deus na Catedral de Santiago, no lugar das hipocrisias e insensatezes
que desonraram tanto aos incautos como aos enganadores, e que foram a
causa incidental dos horríveis fogos desse moderno Tofete? Por que Roma
não se converte hoje em um trono de Jesus Cristo, em vez de ser assento
da Besta? Eu não poderia responder-lhes. Mas com toda segurança, à
soberania divina que passa por alto a muitas raças de homens, lhe
agradou instalar-se na família anglo-saxônica, para que possam ser,
iguais aos judeus dos tempos passados, os custódios da verdade divina e
os favoritos da graça poderosa.
Não necessitamos falar mais acerca da
eleição em seu carácter nacional, pois o princípio é implementado
claramente de forma individual. Acaso vêem algo, irmãos meus, nesse rico
publicano cujas arcas estão cheias com os resultados de sua extorsão,
quando sobe a árvore de sicômoro para que sua pequena estatura não lhe
impeça ver ao Salvador; vêem algo nele que explique por que o Senhor de
glória se deteve abaixo dessa árvore de sicômoro dizendo: “Zaqueu, desce de pressa, porque hoje me convém pousar em tua casa”?
Podem dar-me alguma razão pela qual aquela mulher adúltera, que havia
tido cinco maridos, e que estava vivendo com um homem que não era seu
esposo, deveria constranger ao Salvador a viajar através de Samaria para
poder lhe falar da água da vida? Se vocês podem ver algo, eu não posso.
Olhem esse fariseu sedento de sangue,
apressando-se a Damasco com autoridade para lançar a homens e mulheres
na prisão, e derramar seu sangue. O calor do meio-dia não consegue
detê-lo, pois seu coração está mais quente com cólera religiosa que o
sol com seus raios do meio-dia. Mas vejam, ele é detido em seu caminho e
uma luz brilhante o rodeia; Jesus fala desde o céu as palavras de uma
terna censura; e Saulo de Tarso se converte em Paulo, o apóstolo de
Deus. Por quê? Por qual motivo? Que outra resposta pode ser oferecida
senão esta: “Sim, Pai, porque assim te agradou”.
Leiam a “Vida de John Newton,”
acaso não se havia convertido no pior de todos os vilões? Leiam a
história de John Bunyan, quem por confissão própria era o mais baixo de
todos os criminosos, e digam-me, acaso podem encontrar em qualquer
destes dois transgressores algum tipo de razão pela qual o Senhor deveu
tê-los escolhido para estar entre os mais distintos arautos da cruz?
Nenhum homem na plenitude de seus sentidos se aventuraria a afirmar que
havia algo em Newton ou em Bunyan que atraísse a atenção do Altíssimo.
Foi a soberania, e nada mais do que a soberania.
Considerem seus próprios casos, queridos
amigos, e esse será o mais convincente de todos os exemplos para vocês.
Se conhecem algo de seu próprio coração e se formaram uma avaliação
correta de seu próprio carácter; se consideraram seriamente sua própria
posição ante o Altíssimo, a reflexão de que Deus os ama com um amor
eterno, e que, portanto, com os laços de Sua bondade os atraiu, os fará
exclamar de imediato: “Não a nós, oh Jeová, não a nós, senão ao teu nome dê glória, por tua misericórdia, por tua verdade”. Irmãos!
O mundo inteiro está cheio de exemplos da soberania divina, pois em
cada conversão, algum relâmpago do domínio absoluto de Deus brilha e se
manifesta na humanidade.
Quando um pecador está ansiosamente
perturbado pelos assuntos de sua alma, seu principal e primordial
pensamento não deveria ser acerca deste tema da eleição; quando um homem
quer escapar da ira e alcançar o céu, seu primeiro pensamento, seu
último pensamento, e o pensamento que está localizado no meio deve ser a
cruz de Cristo. Como um pecador que despertou, tenho muitíssimo menos
que ver com os propósitos secretos de Deus, do que com Seus mandamentos
revelados. Que um homem diga: “Tu ordenas a todos os homens que se
arrependam, contudo eu não irei arrepender-me, porque eu desconheço se
sou eleito para a vida eterna,” não somente não é razoável, senão que é
superlativamente perverso. Que não é razoável o verão ao refletir por um
momento.
Eu sei que o pão por si mesmo não alimenta meu corpo, pois “Não só de pão viverá o homem, senão de toda palavra que sai da boca de Deus”.
Depende, portanto, do decreto de Deus, se esse pão vai nutrir meu corpo
ou não; pois se Ele não tem o propósito que o faça, pode inclusive
sufocar-me, e assim converter-se na causa da minha morte muito mais do
que no sustento da minha vida. Então, acaso quando tenho fome ponho
minhas mãos nos bolsos e permaneço quieto, e me recuso a tomar alimentos
da mesa bem servida, simplesmente porque não sei se Deus decretou que o
pão me nutra ou não? Se eu fizesse isso seria um idiota ou um louco; ou
ainda estando em meu pleno juízo, morreria de fome ao assumir esta
posição, e mereceria o funeral de um suicída.
Eu não estou completamente seguro que no
próximo ano haverá uma colheita abundante em meu campo; a menos que
Deus ordene que o trigo brote e amadureça, todo a minha labuta será
trabalho perdido. Há vermes na terra, geadas no ar, pássaros no céu,
umidade nos ventos; e tudo isto pode destruir meu trigo, e posso perder
cada grão dos punhados que lanço nos sulcos da minha terra. Então,
abandonarei minha fazenda para que seja uma perpétua terra baldia porque
desconheço se Deus decretou que haja uma colheita para o próximo ano ou
não?
Se meu negócio quebra, se sou incapaz de
pagar o aluguel, se o espinho e o cardo crescem mais altos e espessos, e
se ao fim o dono da minha casa me despeja, tudo o que os homens dirão
será: “Ele o merece!” Porque fui tão tonto como para converter os
propósitos secretos de Deus em um assunto de suprema consideração ao
invés de desempenhar meu dever conhecido”.
Estou enfermo e quebrantado de saúde: um
médico me visita com remédios. Eu não estou muito convencido de que seu
remédio me sare; curou a muitas outras pessoas, mas se Deus decretou
que eu morra, morrerei, não importa qual seja a quantidade de remédios
que eu tome, ou que não tome remédio algum. Meu braço me mortifica, mas
não vou fazer com que me curem, porque não sei se Deus decretou que eu
morra ou não. Quem senão um idiota louco, ou um maníaco delirante,
falaria assim?
Quando ponho o caso debaixo dessa luz,
todos vocês comentam: “Jamais alguém fala dessa maneira; é demasiado
absurdo”. Obviamente que ninguém fala assim. E o fato é que ainda nas
coisas de Deus, ninguém realmente argumenta dessa maneira. Um homem pode
dizer: “Eu não crerei em Cristo porque temo não ser eleito”; mas isso é
tão estúpido, tão absurdo, que eu não creio que ninguém que não esteja
absolutamente demente, pode ser tão crassamente insensato como para crer
em seu próprio raciocínio. Eu estou muito mais inclinado a pensar que
esse é um método perverso e malvado de esforçar-se por entorpecer a
consciência, baseado na teoria que uma má desculpa é melhor do que
nenhuma, e que ainda um argumento irracional é melhor que ter a boca
fechada em uma confusão de silêncio.
Mas posto que os homens sempre estão
chegando a este ponto, e há tantos que continuamente estão utilizando
isto como razão do por quê não crêem no Senhor Jesus Cristo, porque “não depende do que quer, nem do que corre, senão de Deus que tem misericórdia,”
vou tratar nesta manhã de falar com estas pessoas em seu próprio
terreno; e vou esforçar-me, com a ajuda do Santo Espírito, por mostrar
que a doutrina da soberania de Deus, longe de desanimar a alguém, não
contém em si, se é analisada corretamente, nenhum tipo de desânimo para
nenhuma alma que creia em Jesus Cristo.
Por um instante permita-me desviar-me do
meu objetivo, para responder a um método muito comum de representar
falsamente esta doutrina. É conveniente começar com uma clara ideia do
que realmente é a doutrina. Nossos oponentes apresentam o caso assim:
suponham que um pai tenha condenado a alguns de seus filhos à uma
miséria extrema, e a outros os tenha feito supremamente felizes, de
conformidade com a sua vontade arbitrária, seria isso correto e justo?
Não seria antes brutal e detestável? Minha resposta é: certamente que
seria; isso seria execrável no mais alto grau, e longe, muito longe de
nós esteja o imputar um curso de ação assim ao Juiz de toda a terra. Mas
o caso mencionado não é de todo o que estamos considerando, antes um
tão oposto a ele como a luz é oposta às trevas. O homem pecador não está
agora na posição de criança inocente e merecedor de bem, nem tampouco
Deus ocupa o lugar de um pai complacente.
Vamos a supor outro caso muito mais
próximo do alvo, e certamente não é uma suposição, antes uma descrição
exata de todo o assunto. Uns criminosos, culpados dos crimes mais
detestáveis e graves, são condenados com justiça a morrer, e vão morrer a
menos que o rei exerça a prerrogativa investida nele, e lhes outorgue
um perdão imerecido. Se devido a razões boas e suficientes, conhecidas
somente por ele, o rei escolhe perdoar a um certo número, e deixar que
os demais sejam executados, há por acaso algo cruel e injusto aqui? Se,
por alguns meios repletos de sabedoria, os fins da justiça podem ser
alcançados perdoando a uns ao invés de condená-los, enquanto ao mesmo
tempo o castigo de alguns tende a honrar a justiça do legislador, quem
se atreverá a afirmar que isto não é correto? Me atreveria a dizer que
ninguém, exceto aqueles que são inimigos do estado e do rei se
atreveriam a fazê-lo. E assim bem poderíamos perguntar: “Que diremos
pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira alguma.” “E que
direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu
poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a
perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória, as
mostrou para com os vasos de misericórdia, que para glória já dantes
preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os
judeus, mas também dentre os gentios?” Quem é o que desejará
impugnar a misericórdia mesclada com a severidade do céu, ou converter
ao eterno Deus em um transgressor, porque “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”?
Vamos agora ao que é o nosso tema, esforçando-nos por limpar esta
verdade dos supostos terrores que se congregam ao seu redor.
I. Comecemos com esta
afirmação, que temos a absoluta certeza que é correta: ESTA DOUTRINA NÃO
SE OPÕE A NENHUM CONSOLO DERIVADO DE OUTRAS VERDADES ESCRITURÍSTICAS.
Esta doutrina, que parece ser tão
severa, não se opõe à consolação que se possa obter corretamente de
qualquer outra verdade da revelação. Aqueles que sustentam a teoria do
livre-arbítrio, dizem que nossa doutrina que estabelece que a salvação é
unicamente do Senhor, e que Ele terá misericórdia de quem Ele quiser
ter misericórdia, tira do homem o consolo que se deriva da bondade de
Deus. Deus é bom, infinitamente bom em Sua natureza. Deus é amor; Ele
não quer a morte de ninguém, antes quer que todos venham ao
arrependimento. “Porque não quero a morte do que morre, diz o Senhor Jeová; convertei-vos, pois, e vivereis”.
Nossos amigos insistem tenazmente no
tema de que Deus é bom para com todos, e que Suas ternas misericórdias
estão sobre todas as Suas obras; que o Senhor é misericordioso e cheio
de graça, lento para a ira e abundante em compaixão; permitam-me
assegurar-lhes que nós nunca disputaremos estes pontos, pois nós também
nos regozijamos nos mesmos fatos.
Alguns de vocês escutaram a minha voz
durante estes últimos dez anos: eu lhes pergunto se vocês me ouviram
expressar uma só frase que de todo contradiga a doutrina da grandiosa
bondade de Deus. Na melhor hipótese deduziram por erro, mas um ensino
assim não saiu dos meus lábios. Acaso eu não afirmo, uma e outra vez, a
benevolência universal de Deus, a bondade infinita e sobreabundante do
coração do Altíssimo? Se algum homem pode pregar sobre o grandioso texto
“Deus é amor,” ainda que talvez eu não possa pregar com a mesma
eloquência, me atreveria a competir com esse homem na decisão,
sinceridade, deleite, entrega e simplicidade com os que pudessem expor
seu tema, sem importar quem seja, ou o que seja. Não há a menor sombra
de conflito entre a soberania de Deus e a bondade de Deus. Ele é um
soberano, mas podemos estar absolutamente seguros que sempre atuará
segundo a via da bondade e do amor.
É certo que fará o que queira; mas é
absolutamente certo que sempre quer fazer isso que, desde a perspectiva
mais ampla, é bom e cheio de graça. Se os filhos da dor obtêm algum
consolo da bondade de Deus, a doutrina da eleição nunca interferirá em
seu caminho. Unicamente devem saber que como uma espada de dois fios,
esta doutrina faz pedaços a falsa confiança na bondade de Deus que envia
a tantas almas ao inferno. Escutamos a alguns moribundos cantando esta
canção de ninar enquanto são arrojados ao abismo sem fundo, “Sim Senhor, eu sou um pecador, mas Deus é misericordioso; Deus é bom”.
Ah, queridos amigos, essas pessoas devem
recordar que Deus é justo, assim como é bom, e que de nenhuma maneira
vai perdoar ao culpável, exceto por meio da grandiosa expiação de Seu
Filho Jesus Cristo. A doutrina da eleição, de uma maneira honesta e
sumamente bendita entra e rompe, de uma vez por todas, esta confiança
falsa e sem fundamento na misericórdia de Deus fora do pacto. Pecador,
não tens direito de confiar na bondade de Deus fora de Cristo. Não há
nenhuma palavra em todo o Livro de Inspiração, que dê uma sombra de
esperança ao homem que não creia em Jesus Cristo. Melhor, dele diz: “mas o que não crer, será condenado”. Declara que vocês estão descansando sobre uma confiança tão pobre como um favor do céu que não foi prometido: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que está posto, o qual é Jesus Cristo”.
Se este for um mal que te rouba o falso refugio, a doutrina da eleição
certamente faz isto; mas do consolo que se deriva apropriadamente da
mais ampla visão da abundante bondade de Deus e Seu amor sem limites, a
eleição não tira um só grão.
Muito consolo, também, flui até uma consciência atormentada da promessa que Deus escutará a oração. “Pedi,
e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; Batei, e abrir-se-vos-á. Porque
todo aquele que pede, recebe; e o que busca, encontra; e ao que bate,
se lhe abrirá”. Se vocês lhe pedem qualquer coisa a Deus no nome de
Jesus Cristo, o receberão. Agora, há algumas pessoas que imaginam que
não devem orar porque não sabem se formam parte do povo eleito de Deus.
Se vocês se negam a orar sobre a base de um raciocínio tão mal como
este, devem fazê-lo ao seu próprio risco; mas tenham atenção em nossa
solene asseveração, para a qual temos a garantia de Deus, que não há
nada na soberania de Deus que milite contra a grandiosa verdade, que
toda alma que busca com sinceridade, anelando a graça divina com uma
oração humilde por meio de Jesus Cristo, encontrará essa graça.
Pode estar presente aqui um irmão
arminiano que quisesse subir a este púlpito e pregar a verdade
alentadora que Deus não disse à semente de Jacó, buscais “minha face em vão”.
Nós não somente lhe outorgaremos inteira liberdade de pregar esta
doutrina, senão que iremos tão longe como ele possa ir, e talvez um
pouco mais além, no enunciado dessa verdade. Nós não podemos perceber
nenhuma discrepância entre a eleição pessoal e a prevalência da oração.
Deixemos que aqueles que podem fustiguem
seus cérebros com a tarefa de reconciliá-las; para nós é surpreendente
como um homem pode crer em uma sem crer na outra. Eu devo crer
firmemente que o Senhor Deus mostrará misericórdia a quem quiser mostrar
misericórdia e que terá compaixão de quem quiser ter compaixão; mas eu
também sei com certeza que em qualquer lugar onde há uma oração genuína,
é porque Deus a concedeu; que onde quer que haja alguém que esteja
buscando, é porque Deus o conduziu a buscar; portanto, se Deus levou o
homem a buscar e o conduziu a orar, há de imediato uma evidência da
eleição divina; e é um fato verdadeiro que ninguém que busque ficará sem
encontrar.
Se supõem que muito consolo se deriva, e
naturalmente é assim, dos livres convites do Evangelho. “Ah,” exclama
alguém, “que coisa tão doce é que o Salvador tenha dito: ‘Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei’. Quão delicioso é ler uma passagem como esta: ‘A
todos os sedentos: Vinde às águas; e os que não têm dinheiro, vinde,
comprai e comei. Vinde, comprai sem dinheiro e sem preço, vinho e leite’. Amigo, meu coração é alentado quando encontro que está escrito: ‘E o que queira, tome da água da via gratuitamente’.
Mas senhor, eu não me atrevo a vir devido à doutrina da eleição”. Meu
querido leitor, não queria dizer-lhe palavras duras, mas devo expressar
minha convicção que isto não é nada senão uma desculpa inútil para não
fazer o que não queres fazer; porque os convites de caráter mais geral,
mais ainda, os convites que são universais em seu alcance, são
perfeitamente consistentes com a eleição de Deus. Eu tenho pregado aqui,
e vocês sabem muito bem, convites tão livres como aqueles que saíram
dos lábios do mestre John Wesley.
O próprio Armínio, o fundador da escola
arminiana, não poderia ter suplicado mais honestamente aos mais vis dos
vis que vieram a Jesus, do que eu o tenho feito. Acaso tenho sentido em
minha mente que havia uma contradição nisto? Não, nada parecido; posto
que eu sei que é meu dever semear junto a todas as águas, e como o
semeador da parábola, espalhar a semente sobre pedregais, assim como na
boa terra, sabendo que a eleição não faz estreito o chamado do Evangelho
que é universal, senão que somente afeta ao chamado eficaz, que é e
deve ser particular; e este chamamento eficaz não é obra minha, senão
que sabemos que vem do Espírito de Deus. Meu trabalho é fazer o
chamamento geral e o Espírito Santo se encarregará de sua aplicação aos
eleitos.
Oh, meus queridos ouvintes, os convites
de Deus são honestos convites a cada um de vOcê. Ele os convida; nas
palavras da parábola Ele se dirige a vocês: “Eis que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos”. Mais ainda, Ele disse aos Seus ministros: “Ide pelos caminhos e pelos valados, e força-os a entrar”.
Ainda que Ele saiba antecipadamente quem entrará, e tenha ordenado
antes de todos os mundos quem provará dessa ceia, contudo, o convite em
seu alcance mais amplo possível, é um convite verdadeiro e honesto; e se
vocês o aceitam poderão comprová-lo.
Mais ainda, se entendemos de todo o Evangelho, o Evangelho está contido em poucas palavras. É isto: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo”. Ou, para usar as palavras de Cristo: “Quem crer e for batizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado”.
Esta promessa é o Evangelho. Agora, o Evangelho é verdadeiro, e todo o
demais pode ser falso. Independentemente de que uma doutrina possa ser
de Deus ou não, o Evangelho certamente é de Deus. A doutrina da graça
soberana não é contrária ao Evangelho, senão que está em perfeita
consonância com ele. Deus tem um povo que ninguém pode contar, que Ele
ordenou para a vida eterna. Isto não está em conflito de nenhuma maneira
com a grandiosa declaração: “O que nele crê, não é condenado”. Se algum homem que alguma vez tenha vivido, ou que viverá, crê em Jesus Cristo, tem a vida eterna.
Eleição ou não eleição, se você descansa
sobre a Rocha das Eras, é salvo. Se você, como um pecador culpável,
tomas a justiça de Cristo; se todo negro, imundo e sujo, vêm para ser
lavado na fonte cheia de sangue, com soberania ou sem soberania, podes
estar seguro disto, que você foi redimido da ira vindoura. Oh, meus
queridos amigos, quando vocês dizem: “eu não crerei em Cristo por causa
da eleição”, eu somente posso dizer o que Jó disse a sua esposa, “como fala qualquer mulher louca, assim falas tu”.
Como te atreves, porque Deus te revelou
duas coisas e você é incapaz de encaixar uma na outra, como te atreves a
classificar uma ou outra como falsas? Se eu creio em Deus, não somente
vou crer no que entendo, senão também no que não posso entender; e se
houvesse uma revelação que pudesse entender e resumir como posso contar
até cinco com os dedos de minha mão, poderia estar seguro que não veio
de Deus. Mas se tem algumas profundidades que são tremendamente
profundas para mim, alguns nós que não posso desatar, alguns mistérios
que não posso resolver, os recebo com a maior confiança, pois me
proporciona espaço suficiente para que minha fé nade, e para que minha
alma se banhe no vasto oceano da sabedoria de Deus, orando: “Senhor, creio; ajuda minha incredulidade”.
Que se repita uma e outra vez, que não
haverá nenhuma dúvida acerca deste assunto, que se há algum consolo
derivável do Evangelho; se há alguma doce consolação que flui dos
convites livres e dos mandamentos universais da verdade divina, todos
eles podem ser recebidos e desfrutados por vocês, enquanto vocês
sustentam esta doutrina da soberania divina tanto como se não cressem
nela, e podem receber mais do que esperam.
Creio ouvir uma voz que diz: “Senhor, o
único consolo que eu poderia receber alguma vez surge no valor infinito
do precioso sangue de Cristo; oh, senhor, me parece algo tão doce que
não haja um pecador tão negro que Cristo não possa lavar seus pecados, e
nenhum pecador tão velho, que a virtude meritória dessa expiação não
possa salvar; ninguém em nenhum lugar ou em nenhuma condição a quem esse
sangue não possa limpar de todo pecado. Agora, senhor, se isto é certo,
como pode ser verdade a doutrina da eleição?”.
Meu querido amigo, você sabe em teu
próprio coração que as duas coisas não se opõem de todo uma à outra.
Pois, o que diz a doutrina da eleição? Diz que Deus escolheu e salvou a
alguns dos maiores pecadores que tenham vivido, que limpou alguns dos
pecados mais imundos que tenham sido praticados alguma vez, e que está
fazendo e que fará o mesmo até o fim do mundo. De tal forma que as duas
coisas se encaixam exatamente. E me atreverei a dizer que se com toda a
inteireza do coração de um homem, este diz: “Não há pecado exceto o
pecado excetuado, que não possa ser perdoado,” se ousadamente anuncia
que “Todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens,” e se
argumenta com poder e com autoridade que as almas virão a Cristo e
alcançarão a vida eterna, pode regressar à sua Bíblia, e pode ler cada
texto que ensina a soberania de Deus, e cada passagem que sustenta a
eleição divina; e pode sentir que todos estes textos o olham para sua
cara, e dizem: “Muito bem, nosso espírito e teu espírito são
precisamente o mesmo; não temos nenhum conflito entre nós; somo duas
grandes verdades que saímos do mesmo Deus; somos duas grandes verdades
que sairam do mesmo Deus, da mesma maneira a revelação do Espírito
Santo”.
Mas deixemos esse ponto. Se há algum
consolo, pecador, que você pode obter verdadeiramente e corretamente de
qualquer passagem da Escritura, de qualquer promessa de Deus, de
qualquer convite, de qualquer porta aberta de misericórdia, podes tê-lo,
pois a doutrina da eleição não te rouba nem um só átomo de consolação
que a verdade de Deus te possa dar.
II. Mas agora vamos
tomar outro ponto por um momento. Nosso segundo tópico é que ESTA
DOUTRINA TEM UM EFEITO MUITO SAUDÁVEL NOS PECADORES. Estes podem ser
divididos em dois grupos: aqueles que foram despertados, e aqueles que
foram endurecidos e são incorrigíveis.
Para o pecador desperto, junto com a
doutrina da cruz, a doutrina da graça que distingue seja talvez a que
está mais carregada de bênçãos e de consolo. Em primeiro lugar, a
doutrina da eleição, aplicada pelo Espírito Santo, dá um golpe de morte para sempre em todos os esforços da carne.
Põe fim a pregação arminiana que intenta que os homens sejam ativos,
que os excita a fazer o que possam; mas o verdadeiro objetivo da
pregação do Evangelho é fazer com que os homens sintam que não têm poder próprio nenhum, e deixá-los como mortos aos pés do trono de Deus. Buscamos, debaixo da direção de Deus, fazê-los sentir que toda sua força deve se originar no Forte que é poderoso para salvar.
Se eu posso convencer a um homem que,
não importa o que faça, ele não pode se salvar a si mesmo; se posso lhe
mostrar que suas próprias orações e lágrimas nunca poderão salvá-lo
aparte do Espírito de Deu; se eu posso convencer que deve nascer de novo
de cima; se o levo a ver que todo o que é nascido do espírito é
espírito, irmãos, três quartos da batalha terão sido ganhas. “Eu faço morrer, e eu faço viver,” diz Deus, “quando um homem é morto, o trabalho está feito somente pela metade”. “Eu firo, e eu curo”:
quando um homem é ferido sua salvação começa. Como? Estou incentivando
ao pecador que trabalhe industriosamente para alcançar a vida eterna por
meio de suas próprias obras? Então, certamente, eu sou um embaixador do
inferno. Acaso lhe vou ensinar que há uma bondade nele que deve
evoluir, deve polir, e educar e aperfeiçoar, e assim dizer-lhe que se
salve a si mesmo? Então eu sou um mestre dos pobres elementos da lei e
não do Evangelho de Cristo. Devemos expor as orações de um homem, os
arrependimentos, e as humilhações como o caminho de salvação? Se é
assim, renunciemos a justiça de Cristo de uma vez, pois as duas nunca
vão estar juntas! Eu causaria muito dano se eu promovesse as atividades
da carne em lugar de indicar os braços do Redentor!
Mas se o poderoso martelo da soberania
que elege faz saltar o cérebro de todas as obras, os méritos, os atos, e
a vontade de um homem, enquanto pronuncia sobre esse cadáver esta
sentença: “assim que não depende de quem quer, nem de quem corre, senão de Deus que tem misericórdia;”
então, se terá feito o melhor que se pode fazer por um pecador como um
degrau para o ato de fé. Quando um homem é desmamado de seu eu, e
totalmente liberto de observar a carne buscando ajuda, há esperança para
ele: e isto é o que faz a doutrina da soberania divina por meio do
poder do Espírito Santo.
Ademais, esta doutrina traz a maior esperança ao pecador verdadeiramente desperto.
Vocês conhecem como é o caso. Todos nós somos prisioneiros condenados a
morrer. Deus, como soberano, tem o direito de perdoar a quem Ele
queira. Agora, se imaginem em um grupo, encerrados em uma cela de
condenados, todos culpáveis. Um dos assassinos se diz a si mesmo: “eu
sei que não tenho nenhuma razão para esperar ser libertado. Eu não sou
rico: se tivesse algumas relações de dinheiro, como George Townley,
poderia ser diagnosticado como louco e ser libertado. Mas eu sou muito
pobre; não tenho nenhuma educação. Se tivesse a educação de outros
homens poderia esperar alguma consideração. Não sou um homem de
importância nem posição; sou um homem sem méritos nem influência,
portanto não posso esperar ser selecionado como alguém que será salvo.”
Não, eu creio que se as atuais
autoridades de nossa terra fossem as pessoas a ser consideradas, um
homem pobre teria uma oportunidade muito pobre de esperar qualquer
libertação gratuita. Mas quando Deus é o grande soberano, o caso é
diferente. Pois então, nós argumentamos assim: “Eis-me aqui; minha
salvação depende inteiramente da vontade de Deus: há alguma oportunidade
para mim? Fazemos uma lista daqueles que Ele salvou, e vemos que salva
ao pobre, ao ignorante, ao malvado, ao ímpio, e ao pior dos piores, as
pessoas mais baixas e que são desprezadas. Bem, o que dizemos? Então,
porque não poderia eleger-me? Porque não me salvaria? Se vou buscar uma
razão dentro de mim acerca do motivo pelo qual deveria ser salvo, nunca
vou encontrar nenhuma, e consequentemente nunca terei esperanças. Mas se
vou ser salvo, não por nenhuma outra razão senão porque Deus quer me
salvar. Ah, então há esperanças para mim! Me acercarei ao Rei cheio de
graça, farei o que me pede, vou confiar em Seu Filho amado, e serei
salvo”. Assim que. esta doutrina abre a porta da esperança para o pior
dos piores, e às únicas pessoas que se desanimam são os fariseus, que
dizem: “Deus, te dou graças porque não sou como os outros homens,”
esses espíritos orgulhosos e altivos que dizem: “Não! Se não vou ser
salvo por algo bom em mim, então quero condenar-me!” Serão bem
condenados e com vingança, também.
Mais ainda, podem ver, queridos amigos, como a doutrina da eleição consola ao pecador no assunto do poder.
Sua queixa é: “não encontro nenhum poder para crer; não tenho nenhum
poder espiritual de algum tipo”. A eleição se inclina e lhe sussurra ao
ouvido: “mas se Deus quer salvar-te, Ele dá o poder, dá a vida, e dá a
graça; e posto que Ele deu esse poder e energia a outros tão débeis como
você, porque não a ti também? Tem valor, olhe para a cruz de Cristo e
viva”.
Oh! E que emoções de gratidão, que
batidas de amor gera esta doutrina nos corações humanos. “Como,” diz o
homem, “eu sou salvo simplesmente porque Deus quis salvar-me, não porque
eu tenha merecido, senão porque Seu amante coração quis salvar-me; por
isto eu vou a amá-lo, vou viver para Ele, vou gastar-me e ser gasto para
Ele”. Um homem assim não pode ser orgulhoso, quero dizer, se é
consistente com a doutrina.
Ele está humildemente aos pés de Deus.
Outros homens podem jactar-se do que são, e como ganharam a vida eterna
por sua própria bondade, mas eu não posso. Se Deus me tivesse deixado,
estaria no inferno com outros; e se vou ao céu, devo lançar minha coroa
aos pés da graça que me levou ali.
Um homem assim se voltará amável com os outros.
Ele manterá suas opiniões, mas não as sustentará com frieza, nem as
ensinará com amargura, porque dirá: “se eu tenho a luz, e outros não a
têm, minha luz recebi de Deus, portanto, não tenho razão para
vangloriar-me por isso. Vou tratar de espalhar essa luz, mas sem
provocações e nem abusos. Pois, porque haveria de culpar aos que não
vem? Porque, poderia eu ter visto se Deus não tivesse aberto meus olhos
cegos?” Esta doutrina nutre a todas as virtudes, e mata todos os vícios,
quando o Espírito Santo a utiliza. Pisoteia o orgulho, e promove como
uma filha amada a confiança humilde e plena na misericórdia de Deus em
Cristo.
Meu tempo terminou; mas gostaria de
dizer uma palavra em relação ao efeito do Evangelho sobre pecadores
incorrigíveis. Somente direi isto: sei qual deveria ser seu efeito. O
que dizem vocês que decidiram não arrepender-se, vocês a quem não Deus
lhes importa? Vamos, vocês creem que qualquer dia que queiram poderão
voltar-se a Deus, posto que Deus é misericordioso, e os salvará; e
portanto, vocês caminham pelo mundo com toda a comodidade que lhes é
possível, pensando que tudo depende de vocês, e que entrarão ao céu
justo à hora undécima.
Ah! Homem, esse não é o teu caso. Veja
onde estás. Vês essa mariposa revoando em tua mão? Imagine-a ali. Com
meu dedo posso esmagá-la em um instante. Se vive ou não depende
absolutamente de eu escolher esmagá-la ou deixá-la ir. Essa é
precisamente tua posição no momento presente. Deus pode condenar-te
agora. Mais ainda, te diremos: “tua posição é todavia pior”. Há agora
umas sete pessoas condenadas por assassinato e pirataria em alto mar.
Vocês podem dizer claramente que suas vidas dependem do que agrade a Sua
Majestade a rainha Vitória. Se Sua Majestade escolhe perdoá-los, pode
fazê-lo. Se não, quando venha a manhã fatal, a fechadura se abrirá e eles serão lançados à eternidade.
Esse é o teu caso, pecador. Você já está
condenado. Este mundo não é mais do que uma gigantesca cela de
condenados, onde estás guardado enquanto se aproxima a manhã da
execução. Se vais ser perdoado alguma vez, Deus deve fazê-lo. Não podes
fugir e escapar dEle; não podes suborná-lo com tuas próprias ações.
Estás absolutamente nas mãos de Deus, e se Ele te deixar onde estás e
como estás, tua ruina eterna é tão certa como tua existência. Agora,
acaso não te sobrevém um certo tremor por isto? Talvez não; te causa
ira. Bom, se é assim, isso não me irá atemorizar, porque há alguns de
vocês que nunca serão bons para algo até que não se enojem. Não creio
que seja um mal sinal quando algumas pessoas se enojam com a verdade.
Isso mostra que a verdade as traspassou. Se uma flecha penetra em minha
carne, essa flecha não me agradaria, e se vocês lutam e resistem contra
esta verdade, não me alarmará; terei a esperança que se abriu uma
ferida. Se esta verdade os provocar a pensar, terá feito por alguns de
vocês uma das maiores coisas deste mundo.
Não é o pensamento perverso de vocês que
me atemoriza; é o estilo de vida totalmente insensato que levam. Se
tivessem o suficiente sentido para considerar estas coisas e lutar
contra elas, então teria uma leve esperança em vocês. Ai! Mas muitos de
vocês não têm o suficiente sentido, e dizem: “sim, sim, tudo isso é
verdade,” o aceitam, mas não têm nenhum efeito em vocês. O Evangelho se
desliza por vocês como azeite sobre uma louça de mármore, sem produzir
nenhum efeito.
Se vocês têm algo de um coração reto,
começarão a ver qual é o seu estado, e a seguinte coisa que
sobressaltará sua mente será a reflexão: “Isso é assim? Estou
absolutamente nas mãos de Deus? Pode Ele salvar-me ou condenar-me
segundo lhe pareça? Então vou clamar a Ele, “oh Deus! Salva-me da ira
vindoura – do tormento eterno – e não me lances fora de Tua presença.
Salva-me, oh Deus! O que queres que eu faça? Oh! O que queres que eu
faça, para que eu possa encontrar Teu favor e viver?” Então lhes vêm a
resposta: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo;” para “que todo aquele que nele crê, não se perda, mas tenha vida eterna”.
Oh, que Deus queira abençoar esta divina
doutrina para vocês. Nunca preguei esta doutrina sem que conversões
tenham ocorrido, e creio que nunca ocorrerá isso. Neste instante Deus
fará com que esta verdade atraia seus corações a Jesus, ou que lhes dê
temor dEle. Que vocês sejam atraídos como o pássaro é atraído pelo
chamariz ou que possam ser levados como uma pomba que
está sendo perseguida pelo falcão, até às fendas da rocha. Que somente
sejam forçados docemente a vir. Que o Senhor cumpra este desejo do meu
coração. Oh, que o Senhor me conceda as vossas almas como meu salário; e
que para Ele seja a glória, para sempre. Amém.
ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA TRAZER UM CONHECIMENTO SALFÍVICO DE JESUS CRISTO E PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA
FONTE: Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon553.html
Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público e com autorização de Allan Roman. Sermão nº 553 — Volume 9 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,
Tradução: Júnior Rubira
Revisão: Armando Marcos
Capa: Victor Silva
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